domingo, 21 de agosto de 2016

O sonho de Lisa

Lisa era uma menina alegre e adorava fazer amigos. Ficou muito feliz quando lançaram um aplicativo de mensagens instantâneas no celular, pois assim, poderia estar sempre em contato com aqueles que lhe eram preciosos. Toda manhã ela procurava mensagens de ânimo e as postava finalizando com um grande "bom dia". Vez ou outra algum amigo respondia, mas com o passar do tempo, todos foram se acostumando com o recado e já não dedicavam tempo algum em respondê-la. Lisa não conseguia entender aquele silêncio, mas mesmo assim, continuava a mandar os melhores recados aos seus amigos.
Certo dia, passeando pelo parque, um homem idoso a avistou sentada em um banco de madeira com semblante triste e resolveu falar com ela:

- Bom dia! 
- Bom dia. - Respondeu a menina
- Não pude deixar de reparar que você olhava tristonha para aquelas árvores. Algo a aborrece?
- Bem... Na verdade tem algo me incomodando. É que eu tenho um grupo de amigos no Whattsap e ninguém responde minhas mensagens. Penso que não gostam de mim.
- Não creio que não gostam de você. A vida é corrida e normalmente as pessoas ignoram tudo que têm em abundância. Veja essas árvores. Tão lindas, algumas nos presenteiam com frutos, outras tão frondosas nos convidam a descansar em suas sombras. Quase nunca param para contemplá-las mas mesmo assim, Deus continua a germiná-las por toda parte. E sabe o que penso?
Não importa se respondem ou não as suas mensagens, importa o que você sente ao compartilhá-las. Importa a verdade dos teus sentimentos.
- Nunca parei para pensar dessa forma, mas acho que o senhor tem razão. Eu preciso aprender a não esperar as coisas dos outros!

O idoso então, percebendo a mágoa no coração da jovem, levantou-se dali sem dizer palavra alguma e foi caminhando pelo parque. A menina um tanto intrigada pela atitude súbita daquele homem decidiu segui-lo. Ela notava em seus passos um certo ritmo pausado, pacífico, como os de alguém que desconhece a pressa. Ela foi diminuindo o ritmo dos próprios passos e buscava imitar o idoso em suas contemplações. Ela o viu parar em frente à uma Sibipiruna e olhar para um ninho de pássaros. Lisa fez o mesmo e percebeu a mamãe pássaro encará-la com fervor. Ela movia a pequena cabeça de um lado para o outro e notou que a Sabiá fazia o mesmo, numa espécie de comunicação. Num dado momento, Lisa estendeu a sua mão e a Sabiá pousou ali. Ela cantou brevemente e voltou ao ninho. A menina ficou encantada!
Ela continuou a caminhada na tentativa de alcançar o idoso, quando uma criancinha de aproximadamente 3 aninhos, numa corrida desengonçada abraçou suas pernas, a encarou e disse o mais encantador e demorado "oi" que ouvira até então. Lisa respondeu o "oi" da garotinha acariciando levemente sua cabeça, num ato de ternura. A mãe da garotinha a chamou e as duas se despediram sorridentes. Mais à frente havia um quiosque para descanso e ao se aproximar de lá, um rapaz cumprimentou Lisa com um "bom dia" e entregou-lhe um panfleto contendo mensagens de paz. Ela continuou a andar enquanto lia o panfleto. Então a menina percebeu uma mulher cabisbaixa e decidiu cumprimentá-la com um "bom dia" entregando-lhe o panfleto.
Lisa seguiu na tentativa de encontrar novamente o idoso, e no caminho, várias pessoas a cumprimentavam com "bom dia". A menina já havia dado várias voltas no parque e o Sol já estava se pondo. Sem mais esperanças de encontrar o idoso, Lisa decidiu ir para casa.
Quando chegou até a portaria de saída, a mulher que recebera aquele panfleto de suas mãos a abordou e disse:

- Com licença. Você me deu um panfleto há algumas horas e eu preciso lhe dizer uma coisa. Eu estava sentada, lamentando a minha solidão e o fato de não ter me casado até agora. Foi quando você me apareceu desejando um bom dia e entregando este panfleto. Acontece que naquele exato momento, eu havia feito uma pergunta para Deus: O que o Senhor tem planejado para mim?
E a resposta veio com o título deste panfleto: a paz. Muito obrigada! Posso lhe dar um abraço?
- É claro!
E as duas se abraçaram fraternalmente.

Lisa já nem se lembrava mais de suas mágoas. Ela seguiu feliz e confiante quando o idoso subitamente tocou-lhe os ombros dizendo:

- Todo dia é um bom dia para quem tem pureza e amor.

Lisa olhou para trás e não viu ninguém. Quando voltou-se para frente, ela despertou de seu sono. Tudo não passava de um sonho. Ela pegou o celular que estava em sua mesinha de cabeceira e viu sua mensagem de "bom dia" estática e sem nenhuma resposta. Então um leve cheiro de mirra a fez abrir um breve sorriso, olhar para o alto e dizer:

- Bom dia!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O Mar e a Vida

Toda vez que me vejo diante do mar me pergunto a razão pela qual Deus o fez assim, tão imponente e abundante.  Então eu reparo no som das ondas e nos desenhos borrados do Sol se desmanchando a cada vai e vem. Eu O ouvi ali e quase pude vê-lo à beira mar, deixando pegadas na areia e catando conchinhas. E Ele assim dizia:
- Filha, a tua vida e o mar são semelhantes. As ondas representam os altos e baixos e embora não perceba, as derrotas e tristezas têm um valor inestimável à evolução do espírito. Veja, as águas se recolhem, se reúnem e voltam em grandiosas ondas, tão poderosas e consistentes que chegam a mergulhar na areia sólida trazendo consigo as conchas sedimentadas em seu interior. Quando algo lhe acomete, é exatamente isso que acontece. Você chora, entristece, fragmenta sentimentos diversos e depois reúne o essencial de cada momento vivenciado e volta à caminhada mais forte. E com forças renovadas você transborda sabedoria e a derrama aos pés de outro caminhante. A luz do Sol refletida na água são as vontades superficiais que borram e se desmancham facilmente. Por outro lado, o calor do Sol é o sonho. Ele dura mais porque atinge profundamente todos os sentidos humanos. Há mais vida no fundo do mar do que em sua superfície, sendo assim, saiba que a tua parte mais viva também encontra-se em teu interior. E nunca julgue. Uma superfície turbulenta pode esconder profundezas pacíficas e uma superfície calma pode esconder profundezas agitadas. Eis a razão pela qual fiz o mar assim, tão grandioso: para que todos pudessem enxergar o movimento da vida. E não se engane, os maiores milagres sempre estarão no trivial.




sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sejamos como o Sol

A vida é tão curta... Não importa com quantos anos a gente se despeça, a vida sempre será curta. Seria tão bom se a pressa do mundo viesse da vontade de alongar sorrisos. 
Veja o Sol. Ele brilha para todos aqueles que elevam a face à ele. Ele brilha para que sua luz alcance quantos a vida quiser, não quantos ele quiser. Ele aceita ser Sol, simplesmente e grandiosamente, Sol. A Terra gira. Logo vem a  noite, com a Lua e estrelas. O Sol está parado, mas sua luz se movimenta. Sua chama interna continua acesa. Não importa o que aconteça, vinte e quatro horas depois ele estará lá. 
Sejamos como o Sol na vida das pessoas. Sejamos a certeza de apoio. Sejamos a certeza da amizade. Sejamos o bom dia, a boa tarde e a boa noite. Não precisamos fazer malabarismos. Não precisamos ser grandiosos aos olhos dos outros, precisamos ser grandiosos à nossa própria consciência. Sejamos humildes para ajudar o próximo, mas que sejamos ainda mais humildes para reconhecer nossas arrogâncias. Sabemos que o Sol é grandioso. Mas o mundo gira e ele se vai. Saibamos a hora de sair de cena. Que possamos distinguir o ego da auto estima. Sejamos sábios como a natureza. Ali, tudo tem seu valor, por ínfimo que seja, ainda é parte de um todo. Lembre-se:
Somos todos UM TODO!

Paz e Luz, sempre!



domingo, 7 de agosto de 2016

Contemplação

Hoje amanheci nova
E deixei a janela aberta
Só para a vida entrar.

Os raios de Sol me visitaram
E o vento bagunçou no ar
A poeira dos lençóis amassados.

Troquei os antigos olhos
E os ideais viciados
Pela contemplação silenciosa.

E enquanto o mundo acontece lá fora,
Aqui dentro cresce um delicioso,
Vadio e pacífico nada.
















terça-feira, 2 de agosto de 2016

Rede de encenação

Eu por mim, todos por ninguém!
Grita este tempo moderno
Onde ter é melhor que ser
Para inveja geral da rede social

A felicidade a bordo do cruzeiro
Esvai ao sopro do vento
Quando o tal fulano fofoqueiro
Ignora sua linha do tempo

Diante do mar de Cancún
Golfinhos fizeram pose
Mas você não viu nenhum
Viu apenas sua selfie em close

Essa tal modernidade
Advinda da globalização
Colocou o mundo inteiro
Numa rede de encenação

A verdade cruel e medonha
É que ninguém quer se revelar
Pois seria imensa vergonha
Admitir e colher a dor de errar.