quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A orquestra e o pavão

O peru andava desfilando no parque
Grugulejava faceiro
Feito menino arruaceiro

Então ouviu a melodia
Em plena luz do dia
E a harmonia dos instrumentos
Calou seus pensamentos
Silenciou seus balbucios

Ele não apenas ouvia
Ele sentia
Ele enxergava a maestria

A música penetrou seu sangue
Transmutou sua personalidade

E no auge da emoção
O peru estufou o peito
Abriu sua cauda
E se viu belo pavão
Pois tomou para si
Que só gente importante
Teria a sorte de estar ali
Naquele mesmo instante.





terça-feira, 6 de outubro de 2015

A porta e o vento

As portas do destino encontram-se entreabertas. Escancará-las ou fechá-las é função do livre arbítrio, e este diz não existir regras.

Ser livre é viver desobrigado, é estar lucidamente embriagado, como quem ouve música para emudecer o mundo.

Um dia, alguém abriu a porta do racismo, mas o palpitar dos corações apaixonados pela igualdade a fechou e deixou um recado pregado nela: Não abra! Pode causar vergonha.

Atrás da porta da intolerância ouve-se grito, desespero e pelo vão dela escorre sangue inocente, corre fluido de vida que deveria ter sido vivida, corre destino ceifado. Essa porta não se fecha pelas mãos. A única coisa capaz de trancafiá-la é a humildade. O som da humildade vem do sorriso do mendigo ao receber atenção, vem do apadrinhamento dos órfãos, vem das mastigadas dos famintos, vem do respeito aos idosos. Humildade não é ser pobre. É reconhecer o valor de todas as formas de vida e ajudá-las também, a entender o próprio valor.

O caminhar fecha a porta da depressão, por isso, ande. Ande nem que sejam passos tortos, desajeitados. Se tropeçar, levante, mas nunca pare. Também não corra. Desfrute a riqueza do caminho. O som dos passos lentos e constantes marcam os compassos de um coração sereno. Deleite-se na sinfonia do teu ser.

O preconceito é barulhento. Suas portas são feitas de vidro vazado para mostrar sua feiura e ecoar seus gritos de guerra. As mãos desesperadas da ignorância sempre tentam agarrar os desatentos. Mas há uma forma de tornar essa porta invisível. Entoe o respeito. Espalhe-o de forma contagiosa. Não julgue o que não conheces e nem o que já sabes. Saiba ser aprendiz e ganhe um mar de possibilidades.

As portas da vida precisam ser tocadas, seja para abri-las ou fechá-las. Mas há uma delas que suplica sua atenção. Ela quer deixar de ser porta, ela quer estar  vazia da possibilidade de ficar fechada. Ela quer que você arranque as dobradiças e a jogue longe. É a porta da fé em você mesmo. Essa tem que deixar de ser porta para fluir eternamente no teu ser como vento. Há um uivo que sopra em teu ouvido dizendo que você é capaz de alçar voo. O zunido refrescante diz que seu dom é especial demais para ficar guardado. Doe sua essência e prove para esse mundo que o vento sempre esteve certo.






segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Quero voltar lá

Quero voltar lá!
Nos campos verdejantes
Onde a infância é sagrada
Participar das rodas de ensinamentos
Ouvir ecoar no coreto de vidro
As mais belas canções

Quero voltar lá!
Onde as pessoas se ajudam
Com vestes praticamente iguais
Pois lá ninguém é mais
Lá ninguém tem mais

Quero voltar lá!
Onde o Vale some no horizonte
E as flores são grandes
E as cores vívidas 
Daquelas que tecnologia alguma
Consegue alcançar

Quero voltar lá!
Onde só há sorriso
Só há bondade
E na fraternidade
Somos realmente irmãos

Quero voltar lá!
Onde não há transporte
Pois o movimento
Se faz à luz do pensamento

Quero rever a cabana
Feita de pedra e palha
Revisitar o menino negro
Sorridente e encantador
Mensageiro de uma promessa
A promessa do Criador

E naquele bilhete
Apenas uma tira
Frase incompleta
Estava repleto
De ensinamento

Não mais sinto
Vergonha em chorar
Pois sei que chorando
A alegria vai chegar

Um dia descobri
Muitos sentidos
E me foi permitido
Entender:

Aquele que leva a preciosa semente
Andando e chorando
VOLTARÁ, sem dúvida
Com alegria
Trazendo consigo
Os seus molhos

E diante disso
Eu sei
É pra lá que eu vou!