domingo, 31 de janeiro de 2016

Decifra-me se puder

Não sou alguém de sentimento inventado.
Se eu choro é porque as lágrimas ganham espaço para derramar a dor, se desabrocho um sorriso é porque a plenitude me rouba, se o rancor range os meus dentes é porque preciso experimentar o luto. Eu sou o momento, o agora moldado pelo ontem e o futuro trançado passo a passo.
Eu sou ninguém para muitos, sou alguém para poucos, sou só mais uma na multidão.
Eu sou a novela da minha vida, sou o conto do vizinho, a crônica dos meus dias. Sou o romance dos afetos, o drama das tristezas, a aventura das escolhas. Sou a ficção dos meus devaneios, o terror dos meus medos, a comédia das bobeiras.
Eu gosto de ser essa bagunça indecifrável, quero manter o quarto do meu ser desarrumado para me perder de vez em quando e reencontrar a mesma pessoa em um abraço de saudade sem fim.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Meus erros

Há quem diga que muitas vezes inventamos uma realidade paralela, onde tudo é amizade, é compaixão, é carinho. Se eu pudesse viver nessa realidade para sempre não pensaria duas vezes. Crescer pelo amor, e não pela dor. Crescer pelo carinho e não pelo desafeto. Crescer pela compaixão e não pela humilhação. Ora, é claro que dói quando me ironizam, mas já ironizei também. Dói quando me julgam, mas já julguei também. Dói quando duvidam, mas já duvidei também.
Enfim, o que quero dizer, é que não sou nem um terço do que gostaria de ser e no decorrer dos anos, muitas vezes perdi a razão, gritei, apontei, me deixei levar pelo desejo do ego, me desapontei. E o maior desapontamento sempre vem de nós mesmos.
Certa vez ouvi dizer que as pessoas que mais amamos, também serão aquelas que mais decepcionarão. Pura verdade. Mas sabe por quê?
Porque depositamos nelas toda a confiança sem deixar sobras para nós. Entregamos à elas a obrigação de amar. É como ser expectador das atitudes alheias e entregar a própria caminhada para aliviar o peso das consequências condenando o próximo pelos possíveis resultados negativos.
Nada do que eu disser aqui irá redimir meus erros, tampouco impedirão que eu erre novamente. Mas ao dar a cara a tapa e expor tais fraquezas, eu solidifico a vontade de ser diferente. A luta é árdua. Eis a verdade, não tenho dom para ser um dos Semideuses de Fernando Pessoa!
A paciência é uma virtude a ser trabalhada. E haja paciência!
Há quem entenda, há quem analise, há quem discorde... Existem pessoas para tudo! Opiniões para tudo!
O que eu espero com isso?
Dos outros, nada. 
De Deus, misericórdia. De mim, a fé, pois é ela que mantém viva a vontade de ser alguém melhor.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Ipê da praça

Quanta beleza mal vista há neste mundo?
Tantos olhos cegos, passos indiferentes, mãos que deslizam sobre as teclas em tantos dispositivos em prol de ninguém.
A inveja é difundida em doses homeopáticas, derramada gota a gota afim de se passar despercebida.
O celular apontado para o rosto vaidoso quase registra o tronco do Ipê, frondoso e centenário, um verdadeiro idoso que carrega em seu viver gerações e gerações de bicho e gente.
O gigante vitorioso que por sorte não estava no caminho de nenhum prédio, nenhuma casa, viu seu semear ser arrancado, dilacerado, torturado pela motosserra e descartado como lixo. Suas grandes criações, seus milagres e principalmente, seus propósitos estavam agora mortos. Os pássaros que ali repousavam choram a perda de seus ninhos nos ombros amadeirados do solitário Ipê, que na falta dos seus, acolhe os pequenos viajantes também órfãos de seus filhos.
Apesar da dor a vida não para. O vento vem, carrega novamente suas sementes, mas o solo se recusa a reproduzi-las. A terra abafada pelo cimento quente sonha ver a luz do dia para fecundar os tesouros e espalhar novas riquezas. Mas nada acontece.
As pessoas têm pressa, não querem mais sujar os sapatos com essa terra e nem colher as flores jogadas de presente para celebrar a vida.
Tem gente que paira sob a sombra da copa do velho, que por sua vez, abençoa a companhia do Sol, pois sem ele, seria ainda mais ignorado.
Os celulares preferem os rostos, as roupas, o beijo encenado, o sorriso forçado.
A árvore sem graça, é só uma árvore. Quem liga para o ar que ela luta para filtrar? Quem liga para suas perdas? Quem liga para seus ninhos? Quem liga?
Grande parte das pessoas querem plantar essa beleza plástica, esticada, maquiada. Querem possuir corpo perfeito para esconder a feiura da alma. Querem viajar não pela experiência, mas pelas fotos invejáveis a postar nas redes sociais.
Redes sociais... Conceito torto de amizade. Amigo ganha quem tem mais. E só.
Olhar nos olhos pode trazer a verdade, e esta, talvez não seja assim tão bela. Melhor ficar no computador.
E quanto ao Ipê?

Bem, este continua só, mas sonha um dia devagar, com gente confraternizando sobre seus pés, sem medo da terra que suja seus jeans. Sonha beijos vagarosos longe de lentes ciumentas. Sonha com sorrisos verdadeiros, gargalhadas contagiantes. Sonha mãos brincando de bem me quer com suas flores. Sonha pés descalços roçando as sementes. Sonha. Assim como eu. 


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O troféu de renda (Inspirado no caso do vestido de Carlos Drummond de Andrade)

Me perguntaste, que é esse vestido no prego?
O vestido que pendurei é a bandeira branca da rendição sem guerra.
É o sorriso sarcástico; humilhado.
É o colo assanhado; flácido, amassado.
É o desdém ressentido, é o olhar ressequido.
É a lágrima, a bebida, o prato intocado, a ferida.
É o desassossego, é a loucura.
É o desapego, é a tortura.
É a garganta seca, a voz nula.
É a fome da gula.
É o que passei calada, sozinha.
É a noite mal dormida, é o dia embaraçado.
É a velha mal amada, a coitadinha.
É o rosto imponente, machucado.
É a minha glória sem perdão.
A minha indiferença é punição.
A vi pelas costas, sozinha como eu.
Cabisbaixa, perdida no eterno breu.
Ouço passos. A calmaria voltou.
Sem relapsos, à mesa ele sentou.
Tudo não passou de sonho.
Toda essa história eu criei.
E esse vestido de renda medonho.
É o troféu, que nunca ganhei.



Depressão

A pele repuxada do canto das unhas
Revela o açoite de uma ansiedade inventada
Uma dor de poeta que sem sofrer nada
Agoniza palavras e as tornam testemunhas

Chora um mar inteiro dentro do peito
Dói o estômago como fogaréu que consome palha
Sobe até a garganta o gosto da tristeza
Despedaça o coração e o vento espalha

Onde estão as cores?
Por que o arco íris é acinzentado?
Há quem diga que inventa dores
Só para ser valorizado...

"Todos encontram seu lugar no mundo!"
"Eu nem força tenho para sair do fundo!"
A assombrosa culpa vem e o arrebenta
É avassalador, a sanidade não aguenta

Respiração profunda, suspiro de escravo
Pernas cansadas, pesadelo acordado
Angústia sem sentido nem explicação
Não se engane, isso tem nome: chama-se depressão!



 






segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Para nunca dizer adeus

Corro, me escondo
Saio de cena num piscar de olhos
Me mantenho calada para guardar apenas o olá

Não quero colecionar despedida
Não creio no fim
Defendo a eternidade com a mesma certeza do ar que respiro

Dou a quem amo a liberdade de voar
Gosto do cantar de pássaros mas não os prendo
Deixo-os livres para sonhar o retorno

Não espero...
Criar expectativas é querer ser dono de algo
E há tempos entreguei minha vida a Deus

Vivo como andarilho
Não quero parar... Não posso parar!
A caminhada tem que continuar.

Sigo encontrando amigos
Os deixo com as interpretações de mim
E sigo na miúda, para nunca ter que dizer adeus








Oração da manhã nos tempos atuais

Ó Deus de bondade eterna
Obrigado (a) por mais um dia que amanhece
Abençoe nosso caminho para que cheguemos intactos aos nossos trabalhos
Nos ajude a ser cautelosos e prudentes no trânsito
Dá-nos serenidade para não reagir aos assaltos
Veda nossos olhos às baboseiras das redes sociais
Que saibamos curtir assuntos relevantes
Ajuda-nos a compartilhar mais sorrisos do que desgraças
Permita-nos trabalhar sem esquecer dos nossos pais, irmãos e filhos
Farta-nos de coragem para recusar propostas ilícitas
Cerre nossos lábios ao sarcasmo
Encha-nos de paciência para com egoístas
Proteja nossas crianças dos jogos maléficos
Ensina-nos a cortar despesas para suportar a inflação
Dá-nos sabedoria para reconhecer as lorotas políticas
E que sejamos dignos para que assim, tenhamos moral  para receber as dádivas do Divino Pai Eterno,

Amém.





sábado, 23 de janeiro de 2016

Tempo - O enganador de sonhos

A gente sempre aprendeu a respeitar os mais velhos por sua bagagem cultural, pela sabedoria recolhida durante a caminhada da vida, pelas batalhas vencidas e perdidas, como se a única coisa boa da velhice fosse o seu passado. Agimos intuitivamente presenteando nossos avós com pijamas e chinelos, levando-os a crer que agora o melhor lugar é o leito. Abafamos sem querer os sonhos maduros, dando por missão cumprida a luta de um guerreiro que na alma ainda empunha armas com a destreza de um menino. Nem sempre o colágeno vencido da pele e cabelos brancos são sinônimos de cansaço. Quantas vezes vi idosos mostrando o muque, equilibrando-se em uma perna só, como se quisessem declarar ao mundo que prazos são mentirosos.
Já perceberam como o relógio desafia a nossa fé e como os prazos amputam a felicidade?
Ora, nunca ouviu alguém dizer "estou velho para isso", "na minha idade não dá mais", e por aí vai?... Vai a oportunidade de viver... Vai a alegria... Vão os sonhos... E vivos, nos deixamos morrer.
Agimos conosco como médicos que anunciam a morte em poucos dias. Invalidamos nossa capacidade de seguir em frente e paramos os ponteiros antes mesmo da bateria acabar. No auge da sabedoria vamos arrastando os pés, contando os remédios e ansiando pelo dia em que teremos a tão sonhada paz.
Com sorte, um dia todos iremos envelhecer.
O que importa a coluna curvada, se a cabeça se mantém em pé na esperança?
O que importa a face enrugada, quando ainda há beleza no sorriso?
Nosso corpo é apenas abrigo da nossa alma, e assim como uma casa, com o tempo se deteriora. Esse é um fato imutável e quer saber? Essa é a grande beleza da vida! É esse o detalhe justo que mantém a igualdade da humanidade.
Não importa o tempo, o dia, a hora... Importa a noite bem dormida e a manhã bem aproveitada. Importa a dança no meio da sala, a casa bagunçada, os amigos de estrada. Importam os perdões concedidos e recebidos, importam as derrotas aprendidas, as vitórias comemoradas, as lágrimas derramadas e as gargalhadas. Importam as tatuagens marcadas pela lembrança. Importa teu respirar!
Você, acima de tudo, é o que importa!
Não é egoísmo, é gratidão pela vida! É a certeza de que relógio nenhum vai parar teu semear, pois até seu último suspiro, suas flores e seus frutos hão de nascer!









sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Ode à José Régio

Conheci um tal de Régio, seu legado me tocou
Não pelas cruzes daquele prédio
Mas do seu eu que me restou

Palavras fortes, coragem materializada
Tinta, papel, Deus, céu e coração
A dualidade que tanto esboçava
Era nada mais, questionamentos de um homem são.

Chame-o de louco, se quiser ser como todos!
Vá por aqui, siga por ali, são passos de quem o destino não pertence
Pois existir é diferente de viver, e verdade é para quem se atreve pertencer

A bíblia seu refúgio, ou seu maior temor?
Sangria alienada ou prova de amor?
Indagar é proibido, é caminho para o abismo
Liberdade não existe, o que existe é egoísmo

Açoitado pela culpa, perdão de Deus  precisas ter?
Coleciona Sua história para lembrar de arrepender?
Sua fé seleta, brinca com a razão
Ora credes, ora não.

Da tua "insanidade" eu compartilho
Imagino tua busca
Falta resposta, segue o martírio...
Ou é a resposta que nos assusta?

Há uma verdade e nela mergulhei
Amai-vos uns aos outros, essa é a grande lei
Espero o amor para aprender a amar?
Ou amo simplesmente esperando não errar?

Descanse em paz Zé Régio, sua missão foi cumprida
Não há cântico negro, há poesia garrida
Ouça o poema do silêncio, sua voz no alto som
És um simplício, revelado no seu puro dom.



sábado, 16 de janeiro de 2016

Castelo de punição (baseado no documentário I AM de Tom Shadyac)

O castelo que me abriga
É minha prisão eterna
Tenho tudo
Mas nada me pertence

Não carreguei tijolo algum
Cheguei e estava tudo pronto
Para acolher minha vida miserável

Adornei cada canto
Sem saber que estaria me cercando de punição

Maldito lustre pomposo
Maldito móvel lustroso
Não posso me esconder
Há espelhos por toda parte
Refletindo a vaidade que tanto repugnei

Mas se Deus me permitir
Vou me redimir
E a minha vitória
Virá por estas mãos
Cercadas de palavras
E através delas
Vou distribuir castelos
Só para provar para o mundo
Que não há pobreza maior
Do que ter tudo
E não ver nada ao redor.




sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A lenda da merda no ventilador

Era uma vez um homem que vislumbrava ser muito rico. Ele vivia bradando sua vida mediana e queria sempre algo mais. Sonhava com o dia em que todos se calariam na sua presença, queria provar a todo custo que era inteligente e sabia que na sociedade em que vivia só seria respeitado se fosse milionário, afinal, dinheiro era sinônimo de sabedoria.
Certa vez, caminhando no bairro onde morava, o homem avistou uma velha cigana que havia deixado cair uma moeda de ouro na rua. A senhora não notou a recente perda e seguiu o trajeto normalmente. O homem então, muito ganancioso, recolheu a moeda e a guardou em seu bolso.
A cigana foi até a padaria e pediu alguns pães, queijo e um doce que havia prometido para sua netinha. O recinto estava cheio e como sempre, as pessoas tinham pressa. Na hora de pagar as compras, a velhinha colocou a mão no bolso e após alguns minutos as pessoas começaram a reclamar:

- Vai pagar ou não vai?! - Não tem dinheiro, saia da fila!- Tem gente que não se toca!

O atendente, percebendo a agitação, foi logo tirando das mãos da cigana os alimentos e convidando-a a sair dali.

Muito triste e humilhada, a cigana volta para casa com um objetivo: o de fazer justiça!
Já em casa, a velha cigana pegou seu livro de magia, cercou-se de velas e proferiu os seguintes dizeres:

- Ourives das trevas, senhor das riquezas impuras, torne o excremento em ouro, naquele que se fez de tolo, até que o ladrão, na humilhação, se revele e peça perdão!

Nesse momento, o homem que carregava a moeda, sentiu sua barriga doer e correu à loja mais próxima pedindo para usar o banheiro. Chegando lá, ele defecou moedas de ouro. Ficou sem entender, mas ao mesmo tempo, comemorou o fato de ter em suas mãos tantas moedas. Sem pestanejar, o homem comprou um estoque enorme de laxante para produzir mais dinheiro. Após alguns meses, o homem já havia feito tudo quanto sonhara: comprou mansões, viajou o mundo, participava de todas as festas e eventos vips, tinha uma coleção de carros, relógios caros, obras de arte e ostentava um estilo de vida invejado por muitos. Mas o homem queria mais. Agora lutaria por poder! Queria ter todos aos seus pés, bajulando e fazendo tudo quanto ele mandava. Decidiu então intensificar a produção. Tomou uma dose tripla de laxante e no meio de uma festa da alta sociedade, ele não se segurou e defecou moedas no meio do salão na frente de todos. Isso gerou uma agitação enorme! Todos queriam saber como ele fazia aquilo. Ninguém acreditava quando ele dizia não saber como começou ou o que causou.
Então, a tropa de elite foi acionada e adentrou o recinto, prendendo-o e encaminhando-o ao centro de estudos avançados da fisiologia. O homem foi submetido a diversos testes e todos queriam mantê-lo em cativeiro, afinal, ele era provedor de muito dinheiro. O governo queria encontrar a fórmula mágica do dinheiro, pois assim, saberia que todos estariam dispostos a pagar um bom preço e a economia estaria sempre salva. O homem foi ficando depressivo por ter sua liberdade arrancada e sua produção começou a cair. Ele ficou desanimado, não queria mais comer e, em determinado momento pensou em dar fim a si mesmo para aniquilar o sofrimento. Mas nem isso era possível, já que era altamente vigiado e protegido.
Sem muitas opções, ele chamou o presidente da nação e disse que revelaria seu segredo, mas requisitou a oportunidade de fazer isso em público, num grande estádio com um ventilador central grande para que todos ficassem confortáveis, afinal, sabia que esse seria um evento no qual todos queriam estar presentes.
Tudo foi preparado conforme suas vontades e milhares de pessoas aguardavam ansiosas pela divulgação do segredo.
O homem então, tomou todos os laxantes que encontrou, se posicionou bem abaixo do enorme ventilador e gritou:
- Meu nome é Cobi Sá e tudo começou quando recolhi uma moeda que vi cair do bolso de uma senhora e não devolvi. Quero pedir perdão a ela, e como pagamento dos meus pecados, compartilho com todos vocês um pouco do que recebi!
Nesse momento, o homem abaixou as calças, defecou e jogou a merda no ventilador afim de doar para todos um pouco da sua "sorte". Porém algo deu errado... Logo que ele se revelou e pediu perdão, o feitiço foi desfeito, fazendo com que não mais moedas fossem produzidas. O final vocês já sabem! Daí a expressão "merda no ventilador".

E desde então é sabido que onde há muito dinheiro, pode haver também, muita merda!!

FIM





quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

E vou seguindo...

Ahh sórdida modernidade cega
Sociedade de vitoriosos, estudiosos e pensadores
Aos tropeços levanta a taça
Defende a mediocridade como quem defende um filho
Sente-se feliz com a mocinha vingada na novela
E não consegue ver o além que é estampado na tela

Tonta sou eu...
Revoltada perco os dentes num bruxismo infernal
Angustiada deito sonhos em letras
Apedrejada coleciono pedaços de couraça
Mas continuo meu caminho nesse mar de gente "inteligente"
Com os delírios e utopias de uma pessoa "demente"

Sigo observando...
Os mais de cem canais dos quais, com sorte, aproveita-se um
Os defensores de animais cibernéticos que esbravejam a maldade
E que em casa não têm espaço para acolher nem um

Sigo refletindo...
Os mais velhos colocam o futuro do mundo nas mãos das crianças
Pois passar abacaxi é mais fácil do que assumir
A responsabilidade pela infinidade de lambanças

Sigo me divertindo...
Com os propagadores de notícias "cult" das redes sociais
As frases de efeito e citações, curtidas por milhões
Sem autoria correta, ortografia medonha e outras coisas mais

Sigo preocupada...
Com a expansão da corrupção
Filha da superficialidade
Que assombra esta nação!

Sigo orando...
Pelas crianças adoecidas em leitos enferrujados
Por todos que lutam pela paz e pela justiça
Pela erradicação da intolerância e por desabrigados

Sigo sonhando...
Um governo que honra e defende a população
Professores valorizados, médicos preparados
Idosos bem tratados e todos empenhados no que tange a educação

E vou seguindo...
Observando...
Refletindo...
Divertindo...
Preocupando...
Orando...
Sonhando...
Vivendo!








quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Ábidis

Ulisses de Ítaca enamorou-se sob o céu de Santarém
Da preciosa princesa Calipso filha do grande Gorgoris
No crepúsculo silencioso perto do jardim com chafariz
Entregaram-se um ao outro e do amor foram reféns
Donde nasceu o pequenino Ábidis

Ábidis era um bebê inocente que conheceria cedo a inclemência
Seu avô num lapso nervoso mandou no Tejo abandoná-lo
Não gostava de Ulisses e decidiu crucificá-lo
Colocou Ábidis em um cesto e, no auge da sua indecência
O jogou no rio na intenção de matá-lo

Então uma coisa muito estranha aconteceu
O cesto às margens do rio encalhou
Diante da cena um cervo se comoveu
Retirou Ábidis do cesto e o protegeu
Alimentou o menino e docemente o criou

O príncipe crescia alegre e forte
Quando uns caçadores o encontraram na mata
O prenderam com brutalidade insensata
O levaram ao castelo para sua sorte
Deixando a princesa Calipso estupefata

O rei Gorgoris já estava velho e sofrido
Lamentava por não ter um herdeiro varão
Do abandono do seu neto ficou arrependido
Com Ábidis à sua frente fora surpreendido
Deu a ele a coroa e o proclamou Rei da Nação



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O segredo dos Nilsen ( Inspirado no conto A intrusa de Jorge Luis Borges)

Flashes de gritos, olhos rasgados esbugalhados, corpo pálido de aspecto sofrido... De repente uma mão salta da terra a agarrar meus pés. A avidez com que aquela mão me puxava era de alguém faminto por minha carne. Lentamente fui afundando no lamaçal. Senti dentes arrancando minhas entranhas como um tigre determinado a matar a fome. Dor... Desespero... Falta de Ar... Eu, expectador da minha morte, lutava em vão... A lama já preenche minhas narinas... A lama tira minha visão... Num salto, acordo aos berros feito um menininho truncado pelo milésimo pesadelo!
- Pára com isso irmão! É preciso esquecer ou nosso juramento estará fadado ao fracasso! Você tem a mim e eu tenho a ti! Não podemos deixar que essa coisa, essa praga do mal nos separe novamente! – Diz Cristiano segurando firme nos ombros de Eduardo.
Eduardo vivia perseguido pelo mesmo sonho. Por vezes algumas vozes ecoavam em sua cabeça durante o dia, deixando-o visivelmente perturbado. Nos arredores de Turdera, o mais novo dos irmãos Nilsen era visto como Lunático. Já Cristiano o irmão mais velho, tornou-se cliente assíduo do comércio de bebidas local e não era difícil encontrá-lo cambaleando pelas linhas do trem. A má reputação dos rapazes já impactava diretamente suas vidas pois ninguém aceitava ser visto com eles de tal forma que seus bois eram difíceis de vender. Os que ainda aceitavam praticar comércio com eles, subvalorizavam a mercadoria. Os bordéis que costumavam frequentar os aceitava por medo, afinal, já era sabido por todos o desaparecimento de Juliana, e as raparigas eram instruídas a nunca mencionar seu nome.
Certa tarde, Cristiano chegou ao bordel exigindo uma rapariga que se assemelhasse a Juliana. A cafetina atendeu o seu pedido e trouxe Sofia. Sem pestanejar, o mais velho dos irmãos Nilsen ordenou a ela que tirasse a roupa. A moça o fez e ficou parada a sua frente. Ele então acendeu um cigarro e entregou-lhe uma sacola de pano na qual dentro continha um vestido pertencente a Juliana. Em seguida fez um gesto com as mãos orientando-a a vestir a roupa. Sofia sem entender colocou o vestido, desfilou e rodopiou com o mesmo pelo quarto. Cristiano ficou observando com um semblante enigmático, franzindo a testa como alguém mergulhado em devaneio. A cada rodopio de Sofia, o rosto de Juliana sofrido e morto aparecia.  Ora era Sofia, ora Juliana. Com os punhos cerrados, Cristiano batia em sua cabeça afim de acordar da esquizofrenia sórdida como um ato de súplica pelo desaparecimento da senhorita Juliana de sua mente. De olhos fechados, soltou um grito do âmago: Pare! Pare! Suma daqui! Suma! Imunda!
Sofia estremecida de medo pôs-se a correr dali.
Cristiano apagou o cigarro em sua própria pele, deixou o dinheiro da rapariga sob a cama e subiu em seu cavalo afim de retornar para casa. No meio do caminho, parou em um armazém onde comprou pão, leite e queijo e seguiu o curso para uma trilha fechada, coberta de matos crescidos, há alguns quilômetros da linha de trem no Caminho das Tropas. Ao avistar a velha árvore do Ficus, Cristiano desceu do cavalo e o amarrou no tronco. Seguiu à direita cerca de 100 metros e com os pés, afastou as folhas secas do chão, onde revelara um alçapão de ferro. Certificando-se de que não houvesse ninguém por perto, o rapaz puxa o cadeado, contorce a chave e abre a tampa de ferro. Com um certo cuidado, Cristiano desce a escada chumbada na parede de concreto e diz:
- Aqui está a refeição da tarde. Coma e arrume-se para o jantar. Estarei aqui de madrugada para nosso passeio.
Em meio a sons de correntes uma voz feminina então retruca:
- Como foi o seu teatro hoje? Quem foi a digníssima Juliana nesta tarde?
- Cale-se, ou farei com Sofia exatamente o que fiz com Maya! – Impõe-se Cristiano
- E vai privar Dudú de todas as raparigas da cidade? Nesse caso eu agradeço, assim não preciso imaginar aqueles braços fortes abraçando outra mulher! – responde em tom de desafio
Bastante irritado, Cristiano salta na direção da mulher, agarra-lhe a face com uma das mãos, aperta suas bochechas, dá-lhe um beijo forçado e diz:
-  Pois saiba que você é minha. Te comprei ao preço de algumas moedas de prata e te tirei daquela espelunca. Infame, você seduziu meu pobre irmão com esse olhar de pena. Acha que eu matei Maya? Pois digo, você a matou! A culpa foi tão e somente sua. Tem sorte de eu não deixar você apodrecer aqui!
E com um empurrão, Juliana cai sentada em cima das correntes que prendem seus braços e pernas.
Nesse momento, Cristiano deixa cair de seu cinturão uma adaga de lâmina curta, mas sem notar, decide ir embora e deixa apenas um último recado:
- Esteja pronta para nosso passeio noturno!
Ao final daquela tarde, Eduardo decidiu fazer um passeio a cavalo. Estava como sempre a pensar em Juliana, e não conseguia se perdoar por pedir ao irmão que a matasse. Os irmãos haviam feito uma promessa de não permitir que ninguém os separasse, pois somente assim, respeitariam o segredo da família escrito à mão no livro sagrado. Mas o amor que sentia ainda era forte demais e por diversas vezes, ele pegava o Caminho das Tropas para encontrar o restolhal, onde Juliana fora enterrada. Havia plantado ali, flores de amancaya para servir de referência de seu sepulcro. Com uma bíblia nas mãos, o mesmo orava e ao final de cada capítulo, desatava a pedir perdão.
 Ao retornar pela estrada de ferro, Eduardo vê ao longe uma morena esguia com um vestido de tecido vaporoso a caminhar em direção à Estação de Trem. Aquele vestido lhe era estranhamente familiar. Parecia o vestido com que Juliana lhe fora apresentada pela primeira vez! A morena tinha uma forte semelhança, seus traços eram gentis e seus olhos levemente caídos. Eduardo ficou em êxtase! Fincou as esporas em seu cavalo afim de chegar logo à estação onde a senhorita encontrava-se já sentada.
- Boa tarde Ju... Quer dizer.... Boa tarde senhorita! – Cumprimenta Eduardo segurando forte o cabresto para controlar seu cavalo.
- Boa tarde! O senhor não é irmão do Cristiano Nilsen? – Pergunta a senhorita
- Sim, sou. E tú, quem é?
- Me chamo Sofia.  Estive a pouco com ele. Ganhei esse vestido dele. Mas em seguida ele me xingou e sumiu. Acho que estava bêbado.
Eduardo estranhou o fato, afinal, Cristiano disse ter dado fim em todas as coisas de Juliana. Por qual motivo haveria de guardar um vestido velho? Será que ele também sentia falta dela? Um misto de raiva e compreensão lhe assolou. Mas o juramento e o segredo da família eram importantes demais e nada poderia sobressaí-los.
- Estou indo para a praça de Bynnon, gostaria de me acompanhar? – Pergunta Eduardo à Sofia
- Sim, agradeço a gentileza. Sem querer abusar, gostaria de pedir-te um favor. Será que você poderia parar um pouco no parque Finky?
Os dois seguiram a cavalo até o parque Finky onde pararam a pedido de Sofia. Ela já havia colhido algumas flores de amancaya e decidiu então, jogá-las ao pé de uma Ficus enorme e pôs as mãos unidas a rezar. Eduardo deu-lhe um tempo e assim que Sofia relaxou as mãos ele perguntou:
- Desculpe a intromissão, mas percebi que ficaste emocionada. Esta árvore tem algum significado especial para ti?
- Tem sim. – Respondeu Sofia.
Aqui foi a última vez que vi minha irmã, Maya. Ela trabalhava comigo lá na casa de tolerância. Um dia um cliente apareceu lá mascarado e ofereceu muito dinheiro para sair com ela. A cafetina se apoderou de uma parte do dinheiro e deu o restante para Maya, que deveria seguir até a carroça do homem vendada. Antes que ela o fizesse, minha irmã deixou-me um bilhete pedindo para nos encontrarmos aqui, nessa praça, bem debaixo desta árvore. Quando cheguei aqui, ela me deu todo o dinheiro, me abraçou e disse que aquele dia era especial, e sentia que aquele seria seu último encontro como mulher da vida. Disse que na noite anterior tinha sonhado que um homem sem rosto a salvaria em nome do amor. E desde então, ela sumiu. Trago flores pois tenho fé que um dia nos encontraremos novamente.
Havia anoitecido, o céu estava estrelado e pela primeira vez após morte de sua amada Juliana, Eduardo se sentiu confortável na presença de uma mulher. Sofia era romântica, sonhadora e tinha revelado a Eduardo coisas que nunca antes lhe ocorreu dizer a alguém. Com um beijo demorado, os dois selaram uma paixão instantânea.
Cristiano chegou em casa e viu que o cavalo de seu irmão não estava no estábulo. Ele seguiu até o armazém, tomou algumas doses de cerveja e perguntou se alguém vira seu irmão. Todos responderam negativamente. Então Cristiano tomou um banho, esperou algumas horas e novamente seguiu com seu cavalo ao encontro de Juliana. Ao chegar no local, acendeu uma lamparina e foi na direção do alçapão. Desceu cuidadosamente as escadas e ao virar-se, encontrou Juliana morta ao lado da adaga com um recado escrito com seu próprio sangue na parede:
Eu li o segredo dos Nilsen! E logo estará revelado aos quatro cantos!
Cristiano, pálido e assombrado, apoiou-se com vertigem na parede, vomitou em seus sapatos e explodiu a lamparina no corpo de Juliana. Passou a noite juntando galhos secos para destruir o local com o fogaréu. Seu maior pesadelo tornara realidade!
Chegou em casa aos maltrapilhos, fedendo a cerveja e desnorteado. Se jogou em sua catre e esfregou os olhos quando Eduardo surge e pergunta:
- O que houve meu irmão? O que fizeram contigo?
De repente Cristiano levanta, segura os ombros de Eduardo e afoito responde:
- O segredo! O segredo!
Os dois sentiram um frio na espinha e correram até a estante onde guardavam uma bíblia com letras góticas. A última página fora arrancada!
Sofia já na sua casa, despiu-se e viu cair uma folha de papel com anotações feitas à mão. Sentou-se à beira da cama, leu o conteúdo e sem pensar, colocou suas coisas em uma mala e comprou uma passagem só de ida para a Suíça.
De alguma forma, Maya e Juliana foram vingadas, pois sabiam que a partir daquele momento, ambos irmãos morreriam junto com elas, não pela carne, mas por viver com eterno medo do segredo sagrado.




A vida e o sapato

Às vezes eu comparo a vida com o sapato.
Somos como cadarço, nascemos para um propósito que normalmente se revela lá no final do nosso curso. Traçamos nossos objetivos e, vez ou outra, acertamos o buraco (representação das vitórias ao longo do caminho) outras vezes, nos retorcemos e damos voltas para encontrar a próxima saída. Vamos cruzando com o outro lado do cadarço, esbarrando nas pessoas que deixarão em nós um pouco delas e elas partirão com um pouco de nós. Seguimos costurando metas e objetivos afim de garantir nosso sustento e o de quem amamos. Algumas vezes pulamos uns buracos, trocamos a razão pela emoção de viver a plenitude da liberdade. Deixamos o pé mais frouxo, porém, mais confortável. E assim vamos construindo o que se chama destino. E finalmente quando vencemos e chegamos ao topo do que sonhávamos, recebemos um grande nó e para que ele seja possível, é também usado o outro lado do cadarço. Sendo assim, nunca chegamos aonde quer que seja sozinhos. Precisamos uns dos outros para fazer a vida acontecer.
E para finalizar, quando viramos o nó, quando nos respeitamos ao ponto de virarmos um só, somos levados pelos pés Daquele que a vida inteira nos manuseou. E quando esse momento chega, é aí que começamos a viver!

sábado, 9 de janeiro de 2016

Para a consciência não existe álibi

Mentir por boa causa
Omitir por bondade
Enjaular por precaução
Ofender pela verdade

Prestigiar por interesse
Ajudar por obrigação
Ensinar por vaidade
Elogiar por educação

De nada adianta
Tentar esconder a verdade
Sórdida e repugnante
Presente em toda sociedade

Sempre vai existir gente
Disposta a “ajudar”
Entoando ardentemente:
Faço isso por amar!

Acredite em quem não para

Levanta-te no novo dia
Renove as energias
Faça a promessa de que não permitirá
Um amanhecer igual ao outro
Plágio de sofrimento antigo

Reinvente os pensamentos
Não siga pegadas
Pise onde seus pés
Possam registrar novas memórias

Toda descoberta é alento
Todo novo jeito
É conhecimento
Então tente, experimente
Saia do casulo
Amplie sua mente

Abra o mapa
Mas feche os olhos
Nele deslize o dedo
E tome novo rumo

Mas saiba que esse mapa
Não é feito de papel
É feito de carne e sangue
Dentro do teu peito pulsa
E não se engane
Esse vidente
Nunca erra!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Dengue Mata

Do tamanho de um grão de arroz
Ele voa causando o pavor
Mais perigoso que um leão feroz
Vem criando imenso terror

Trata-se do mosquito da dengue
Que também transmite o Zika Vírus
Aedes Aegypti é mortal
E pode estar no seu quintal

Todos fazem campanha
A luta é de toda gente
Vamos cumprir essa façanha
Erradicar esse mal dormente

Sai pra lá mosquito chato
Seu zunido será calado
Te matar é mais barato
Do que ficar hospitalizado

Todos juntos nessa onda
Faremos acontecer o melhor
Qualquer descuido ele sonda
Para procriar ao teu redor

Esse assunto é coisa séria
Não podemos descuidar
Nem mesmo nestas férias
Podemos descansar

Se a água acumula
Tome logo providência
Pois ela confabula
Contra tua sobrevivência

Vamos vencer a batalha
Sejamos sempre vigilantes
Vamos fazer uma mortualha
Desses mosquitos infernizantes!