quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Ipê da praça

Quanta beleza mal vista há neste mundo?
Tantos olhos cegos, passos indiferentes, mãos que deslizam sobre as teclas em tantos dispositivos em prol de ninguém.
A inveja é difundida em doses homeopáticas, derramada gota a gota afim de se passar despercebida.
O celular apontado para o rosto vaidoso quase registra o tronco do Ipê, frondoso e centenário, um verdadeiro idoso que carrega em seu viver gerações e gerações de bicho e gente.
O gigante vitorioso que por sorte não estava no caminho de nenhum prédio, nenhuma casa, viu seu semear ser arrancado, dilacerado, torturado pela motosserra e descartado como lixo. Suas grandes criações, seus milagres e principalmente, seus propósitos estavam agora mortos. Os pássaros que ali repousavam choram a perda de seus ninhos nos ombros amadeirados do solitário Ipê, que na falta dos seus, acolhe os pequenos viajantes também órfãos de seus filhos.
Apesar da dor a vida não para. O vento vem, carrega novamente suas sementes, mas o solo se recusa a reproduzi-las. A terra abafada pelo cimento quente sonha ver a luz do dia para fecundar os tesouros e espalhar novas riquezas. Mas nada acontece.
As pessoas têm pressa, não querem mais sujar os sapatos com essa terra e nem colher as flores jogadas de presente para celebrar a vida.
Tem gente que paira sob a sombra da copa do velho, que por sua vez, abençoa a companhia do Sol, pois sem ele, seria ainda mais ignorado.
Os celulares preferem os rostos, as roupas, o beijo encenado, o sorriso forçado.
A árvore sem graça, é só uma árvore. Quem liga para o ar que ela luta para filtrar? Quem liga para suas perdas? Quem liga para seus ninhos? Quem liga?
Grande parte das pessoas querem plantar essa beleza plástica, esticada, maquiada. Querem possuir corpo perfeito para esconder a feiura da alma. Querem viajar não pela experiência, mas pelas fotos invejáveis a postar nas redes sociais.
Redes sociais... Conceito torto de amizade. Amigo ganha quem tem mais. E só.
Olhar nos olhos pode trazer a verdade, e esta, talvez não seja assim tão bela. Melhor ficar no computador.
E quanto ao Ipê?

Bem, este continua só, mas sonha um dia devagar, com gente confraternizando sobre seus pés, sem medo da terra que suja seus jeans. Sonha beijos vagarosos longe de lentes ciumentas. Sonha com sorrisos verdadeiros, gargalhadas contagiantes. Sonha mãos brincando de bem me quer com suas flores. Sonha pés descalços roçando as sementes. Sonha. Assim como eu. 


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