terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O segredo dos Nilsen ( Inspirado no conto A intrusa de Jorge Luis Borges)

Flashes de gritos, olhos rasgados esbugalhados, corpo pálido de aspecto sofrido... De repente uma mão salta da terra a agarrar meus pés. A avidez com que aquela mão me puxava era de alguém faminto por minha carne. Lentamente fui afundando no lamaçal. Senti dentes arrancando minhas entranhas como um tigre determinado a matar a fome. Dor... Desespero... Falta de Ar... Eu, expectador da minha morte, lutava em vão... A lama já preenche minhas narinas... A lama tira minha visão... Num salto, acordo aos berros feito um menininho truncado pelo milésimo pesadelo!
- Pára com isso irmão! É preciso esquecer ou nosso juramento estará fadado ao fracasso! Você tem a mim e eu tenho a ti! Não podemos deixar que essa coisa, essa praga do mal nos separe novamente! – Diz Cristiano segurando firme nos ombros de Eduardo.
Eduardo vivia perseguido pelo mesmo sonho. Por vezes algumas vozes ecoavam em sua cabeça durante o dia, deixando-o visivelmente perturbado. Nos arredores de Turdera, o mais novo dos irmãos Nilsen era visto como Lunático. Já Cristiano o irmão mais velho, tornou-se cliente assíduo do comércio de bebidas local e não era difícil encontrá-lo cambaleando pelas linhas do trem. A má reputação dos rapazes já impactava diretamente suas vidas pois ninguém aceitava ser visto com eles de tal forma que seus bois eram difíceis de vender. Os que ainda aceitavam praticar comércio com eles, subvalorizavam a mercadoria. Os bordéis que costumavam frequentar os aceitava por medo, afinal, já era sabido por todos o desaparecimento de Juliana, e as raparigas eram instruídas a nunca mencionar seu nome.
Certa tarde, Cristiano chegou ao bordel exigindo uma rapariga que se assemelhasse a Juliana. A cafetina atendeu o seu pedido e trouxe Sofia. Sem pestanejar, o mais velho dos irmãos Nilsen ordenou a ela que tirasse a roupa. A moça o fez e ficou parada a sua frente. Ele então acendeu um cigarro e entregou-lhe uma sacola de pano na qual dentro continha um vestido pertencente a Juliana. Em seguida fez um gesto com as mãos orientando-a a vestir a roupa. Sofia sem entender colocou o vestido, desfilou e rodopiou com o mesmo pelo quarto. Cristiano ficou observando com um semblante enigmático, franzindo a testa como alguém mergulhado em devaneio. A cada rodopio de Sofia, o rosto de Juliana sofrido e morto aparecia.  Ora era Sofia, ora Juliana. Com os punhos cerrados, Cristiano batia em sua cabeça afim de acordar da esquizofrenia sórdida como um ato de súplica pelo desaparecimento da senhorita Juliana de sua mente. De olhos fechados, soltou um grito do âmago: Pare! Pare! Suma daqui! Suma! Imunda!
Sofia estremecida de medo pôs-se a correr dali.
Cristiano apagou o cigarro em sua própria pele, deixou o dinheiro da rapariga sob a cama e subiu em seu cavalo afim de retornar para casa. No meio do caminho, parou em um armazém onde comprou pão, leite e queijo e seguiu o curso para uma trilha fechada, coberta de matos crescidos, há alguns quilômetros da linha de trem no Caminho das Tropas. Ao avistar a velha árvore do Ficus, Cristiano desceu do cavalo e o amarrou no tronco. Seguiu à direita cerca de 100 metros e com os pés, afastou as folhas secas do chão, onde revelara um alçapão de ferro. Certificando-se de que não houvesse ninguém por perto, o rapaz puxa o cadeado, contorce a chave e abre a tampa de ferro. Com um certo cuidado, Cristiano desce a escada chumbada na parede de concreto e diz:
- Aqui está a refeição da tarde. Coma e arrume-se para o jantar. Estarei aqui de madrugada para nosso passeio.
Em meio a sons de correntes uma voz feminina então retruca:
- Como foi o seu teatro hoje? Quem foi a digníssima Juliana nesta tarde?
- Cale-se, ou farei com Sofia exatamente o que fiz com Maya! – Impõe-se Cristiano
- E vai privar Dudú de todas as raparigas da cidade? Nesse caso eu agradeço, assim não preciso imaginar aqueles braços fortes abraçando outra mulher! – responde em tom de desafio
Bastante irritado, Cristiano salta na direção da mulher, agarra-lhe a face com uma das mãos, aperta suas bochechas, dá-lhe um beijo forçado e diz:
-  Pois saiba que você é minha. Te comprei ao preço de algumas moedas de prata e te tirei daquela espelunca. Infame, você seduziu meu pobre irmão com esse olhar de pena. Acha que eu matei Maya? Pois digo, você a matou! A culpa foi tão e somente sua. Tem sorte de eu não deixar você apodrecer aqui!
E com um empurrão, Juliana cai sentada em cima das correntes que prendem seus braços e pernas.
Nesse momento, Cristiano deixa cair de seu cinturão uma adaga de lâmina curta, mas sem notar, decide ir embora e deixa apenas um último recado:
- Esteja pronta para nosso passeio noturno!
Ao final daquela tarde, Eduardo decidiu fazer um passeio a cavalo. Estava como sempre a pensar em Juliana, e não conseguia se perdoar por pedir ao irmão que a matasse. Os irmãos haviam feito uma promessa de não permitir que ninguém os separasse, pois somente assim, respeitariam o segredo da família escrito à mão no livro sagrado. Mas o amor que sentia ainda era forte demais e por diversas vezes, ele pegava o Caminho das Tropas para encontrar o restolhal, onde Juliana fora enterrada. Havia plantado ali, flores de amancaya para servir de referência de seu sepulcro. Com uma bíblia nas mãos, o mesmo orava e ao final de cada capítulo, desatava a pedir perdão.
 Ao retornar pela estrada de ferro, Eduardo vê ao longe uma morena esguia com um vestido de tecido vaporoso a caminhar em direção à Estação de Trem. Aquele vestido lhe era estranhamente familiar. Parecia o vestido com que Juliana lhe fora apresentada pela primeira vez! A morena tinha uma forte semelhança, seus traços eram gentis e seus olhos levemente caídos. Eduardo ficou em êxtase! Fincou as esporas em seu cavalo afim de chegar logo à estação onde a senhorita encontrava-se já sentada.
- Boa tarde Ju... Quer dizer.... Boa tarde senhorita! – Cumprimenta Eduardo segurando forte o cabresto para controlar seu cavalo.
- Boa tarde! O senhor não é irmão do Cristiano Nilsen? – Pergunta a senhorita
- Sim, sou. E tú, quem é?
- Me chamo Sofia.  Estive a pouco com ele. Ganhei esse vestido dele. Mas em seguida ele me xingou e sumiu. Acho que estava bêbado.
Eduardo estranhou o fato, afinal, Cristiano disse ter dado fim em todas as coisas de Juliana. Por qual motivo haveria de guardar um vestido velho? Será que ele também sentia falta dela? Um misto de raiva e compreensão lhe assolou. Mas o juramento e o segredo da família eram importantes demais e nada poderia sobressaí-los.
- Estou indo para a praça de Bynnon, gostaria de me acompanhar? – Pergunta Eduardo à Sofia
- Sim, agradeço a gentileza. Sem querer abusar, gostaria de pedir-te um favor. Será que você poderia parar um pouco no parque Finky?
Os dois seguiram a cavalo até o parque Finky onde pararam a pedido de Sofia. Ela já havia colhido algumas flores de amancaya e decidiu então, jogá-las ao pé de uma Ficus enorme e pôs as mãos unidas a rezar. Eduardo deu-lhe um tempo e assim que Sofia relaxou as mãos ele perguntou:
- Desculpe a intromissão, mas percebi que ficaste emocionada. Esta árvore tem algum significado especial para ti?
- Tem sim. – Respondeu Sofia.
Aqui foi a última vez que vi minha irmã, Maya. Ela trabalhava comigo lá na casa de tolerância. Um dia um cliente apareceu lá mascarado e ofereceu muito dinheiro para sair com ela. A cafetina se apoderou de uma parte do dinheiro e deu o restante para Maya, que deveria seguir até a carroça do homem vendada. Antes que ela o fizesse, minha irmã deixou-me um bilhete pedindo para nos encontrarmos aqui, nessa praça, bem debaixo desta árvore. Quando cheguei aqui, ela me deu todo o dinheiro, me abraçou e disse que aquele dia era especial, e sentia que aquele seria seu último encontro como mulher da vida. Disse que na noite anterior tinha sonhado que um homem sem rosto a salvaria em nome do amor. E desde então, ela sumiu. Trago flores pois tenho fé que um dia nos encontraremos novamente.
Havia anoitecido, o céu estava estrelado e pela primeira vez após morte de sua amada Juliana, Eduardo se sentiu confortável na presença de uma mulher. Sofia era romântica, sonhadora e tinha revelado a Eduardo coisas que nunca antes lhe ocorreu dizer a alguém. Com um beijo demorado, os dois selaram uma paixão instantânea.
Cristiano chegou em casa e viu que o cavalo de seu irmão não estava no estábulo. Ele seguiu até o armazém, tomou algumas doses de cerveja e perguntou se alguém vira seu irmão. Todos responderam negativamente. Então Cristiano tomou um banho, esperou algumas horas e novamente seguiu com seu cavalo ao encontro de Juliana. Ao chegar no local, acendeu uma lamparina e foi na direção do alçapão. Desceu cuidadosamente as escadas e ao virar-se, encontrou Juliana morta ao lado da adaga com um recado escrito com seu próprio sangue na parede:
Eu li o segredo dos Nilsen! E logo estará revelado aos quatro cantos!
Cristiano, pálido e assombrado, apoiou-se com vertigem na parede, vomitou em seus sapatos e explodiu a lamparina no corpo de Juliana. Passou a noite juntando galhos secos para destruir o local com o fogaréu. Seu maior pesadelo tornara realidade!
Chegou em casa aos maltrapilhos, fedendo a cerveja e desnorteado. Se jogou em sua catre e esfregou os olhos quando Eduardo surge e pergunta:
- O que houve meu irmão? O que fizeram contigo?
De repente Cristiano levanta, segura os ombros de Eduardo e afoito responde:
- O segredo! O segredo!
Os dois sentiram um frio na espinha e correram até a estante onde guardavam uma bíblia com letras góticas. A última página fora arrancada!
Sofia já na sua casa, despiu-se e viu cair uma folha de papel com anotações feitas à mão. Sentou-se à beira da cama, leu o conteúdo e sem pensar, colocou suas coisas em uma mala e comprou uma passagem só de ida para a Suíça.
De alguma forma, Maya e Juliana foram vingadas, pois sabiam que a partir daquele momento, ambos irmãos morreriam junto com elas, não pela carne, mas por viver com eterno medo do segredo sagrado.




Nenhum comentário:

Postar um comentário