terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O troféu de renda (Inspirado no caso do vestido de Carlos Drummond de Andrade)

Me perguntaste, que é esse vestido no prego?
O vestido que pendurei é a bandeira branca da rendição sem guerra.
É o sorriso sarcástico; humilhado.
É o colo assanhado; flácido, amassado.
É o desdém ressentido, é o olhar ressequido.
É a lágrima, a bebida, o prato intocado, a ferida.
É o desassossego, é a loucura.
É o desapego, é a tortura.
É a garganta seca, a voz nula.
É a fome da gula.
É o que passei calada, sozinha.
É a noite mal dormida, é o dia embaraçado.
É a velha mal amada, a coitadinha.
É o rosto imponente, machucado.
É a minha glória sem perdão.
A minha indiferença é punição.
A vi pelas costas, sozinha como eu.
Cabisbaixa, perdida no eterno breu.
Ouço passos. A calmaria voltou.
Sem relapsos, à mesa ele sentou.
Tudo não passou de sonho.
Toda essa história eu criei.
E esse vestido de renda medonho.
É o troféu, que nunca ganhei.



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