sábado, 23 de janeiro de 2016

Tempo - O enganador de sonhos

A gente sempre aprendeu a respeitar os mais velhos por sua bagagem cultural, pela sabedoria recolhida durante a caminhada da vida, pelas batalhas vencidas e perdidas, como se a única coisa boa da velhice fosse o seu passado. Agimos intuitivamente presenteando nossos avós com pijamas e chinelos, levando-os a crer que agora o melhor lugar é o leito. Abafamos sem querer os sonhos maduros, dando por missão cumprida a luta de um guerreiro que na alma ainda empunha armas com a destreza de um menino. Nem sempre o colágeno vencido da pele e cabelos brancos são sinônimos de cansaço. Quantas vezes vi idosos mostrando o muque, equilibrando-se em uma perna só, como se quisessem declarar ao mundo que prazos são mentirosos.
Já perceberam como o relógio desafia a nossa fé e como os prazos amputam a felicidade?
Ora, nunca ouviu alguém dizer "estou velho para isso", "na minha idade não dá mais", e por aí vai?... Vai a oportunidade de viver... Vai a alegria... Vão os sonhos... E vivos, nos deixamos morrer.
Agimos conosco como médicos que anunciam a morte em poucos dias. Invalidamos nossa capacidade de seguir em frente e paramos os ponteiros antes mesmo da bateria acabar. No auge da sabedoria vamos arrastando os pés, contando os remédios e ansiando pelo dia em que teremos a tão sonhada paz.
Com sorte, um dia todos iremos envelhecer.
O que importa a coluna curvada, se a cabeça se mantém em pé na esperança?
O que importa a face enrugada, quando ainda há beleza no sorriso?
Nosso corpo é apenas abrigo da nossa alma, e assim como uma casa, com o tempo se deteriora. Esse é um fato imutável e quer saber? Essa é a grande beleza da vida! É esse o detalhe justo que mantém a igualdade da humanidade.
Não importa o tempo, o dia, a hora... Importa a noite bem dormida e a manhã bem aproveitada. Importa a dança no meio da sala, a casa bagunçada, os amigos de estrada. Importam os perdões concedidos e recebidos, importam as derrotas aprendidas, as vitórias comemoradas, as lágrimas derramadas e as gargalhadas. Importam as tatuagens marcadas pela lembrança. Importa teu respirar!
Você, acima de tudo, é o que importa!
Não é egoísmo, é gratidão pela vida! É a certeza de que relógio nenhum vai parar teu semear, pois até seu último suspiro, suas flores e seus frutos hão de nascer!









Nenhum comentário:

Postar um comentário