quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Um pássaro veio me cuidar

Um pássaro veio me cuidar.
Foi ele que no meio de uma fuga desesperada bateu com a cabeça e caiu quase sem ar na minha varanda, mesmo assim, ele veio me cuidar.
Com a mesma gentileza com que segurei meu filho em seu primeiro dia, o depositei em minhas mãos. Sentia acelerado seu coração e suas patinhas inertes e frágeis. Ele queria dormir, mas eu não deixava. O pequeno havia despencado de uma altura de oito metros. Sua cabecinha estava ligeiramente pelada e eu sabia que o bichinho estava desorientado. Em nenhum momento ele tentou fugir. Era como se ele tivesse se entregado aos meus cuidados, como se eu fosse sua única esperança naquele momento: e era. Tratei logo de prender meu cachorro e minha gata dentro de casa para me certificar que o pequeno pássaro estivesse protegido. E pensar que poucos minutos antes estava eu, dentro do meu quarto me arrastando em devaneios, entranhada nos lençóis bagunçados de minha cama. Até esse momento eu não havia contemplado o Sol lindo que trazia o novo dia.
Já na pia de fora, eu molhei meu dedo indicador e passei levemente por sua cabeça. Assoprei sua boquinha com cuidado para vê-lo retomar o fôlego. A situação estava tensa, mas naquele momento eu fui salva. Fui salva da inércia, fui salva da mesmice, fui salva do egoísmo, fui salva da mediocridade. Em minhas mãos estava a criaturinha frágil, a qual, com o passar dos minutos eu percebi: frágil sou eu!
Aos poucos o passarinho foi recuperando-se da queda, foi tomando as gotas d'água que escorriam do meu dedo, foi acalmando seu coração. E eu, naquele momento, ganhei o dia. Eu que alguns minutos antes refletia a minha inutilidade. Eu que alguns minutos antes pensava que havia nascido sem propósito. Eu que me cobrava com a ferocidade de um ser inumano. Ali eu percebi que minha vida tinha sim um sentido maior, muito maior que minhas idealizações. Ali um anjo soprou em meus ouvidos a canção da calma. E eu estava assim, calma, conectada com a natureza de um jeito amplo, com a misericórdia fervilhando minha aura. Eis que em plena luz do dia, um pássaro machucado me salvou!
Ele com sua pequenez, com seus medos me mostrou que ninguém é ínfimo neste mundo. Ele que pia em meu quintal aos céus como numa conversa longa com o criador. Ele que aguarda fortalecer-se para explorar novamente o infinito azul.
Sim, um pequeno pássaro veio me cuidar.


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