quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Boneco de Papel Machê

Havia uma menina. Ela era meiga, delicada, magricela, pernas finas. Corria pela casa, penteava o cabelo de suas bonecas enquanto cantarolava uma canção qualquer. Inventava passos de um ballet que nunca aprendera. Juntava jornal velho num balde d'água para fazer papel machê. Moldava pessoas, sempre pessoas. Maria daqui. João dali. Eles eram seus amigos. Estavam sempre sorrindo. Adoravam conversar com os animais. Em um terreno, margaridas acolhiam joaninhas engraçadas, algumas amarelas, outras laranjas. A menina e seus amigos se bastavam. Aquele era o mundo para ela. Um mundo onde as pessoas só sorriam, conversavam, brincavam e até trabalhavam, mas trabalhar era divertido. Pedaços de madeira empilhados formavam a base da casa, e o teto ficava aberto de propósito para poder ver as estrelas. O regador chovia e as plantas agradeciam dançando. As pedras redondas viravam montanhas e as mais achatadas eram caminhas e sofás. Carros passavam na rua, mas a menina nem reparava. O meio de transporte dela era o pensamento. Seus amigos de papel machê eram a sua obra mais pura, mais doce. Tinham mais vida e mais cor. Com delicadeza, a menina mantinha seus amigos envernizados para manter o brilho do olhar acalentador e amoroso que tanto a acalmava. Esses olhares pareciam confortá-la da angústia das brigas lá dentro de sua casa. Esses olhares diziam "ei, tente sorrir, isso também vai passar". A garotinha era quieta, mas dentro dela cabiam todas as palavras. Quando percebia alguma injustiça, argumentava igual gente grande. Chegou a fazer campanha em prol da flor ressecada e feia no canto escuro do muro. Toda flor era bonita para ela. Brigou com as formiguinhas que picaram seu pé, aterrou a casinha delas e depois chorou de remorso. Construiu um castelo em sinal de arrependimento.
Os anos se passaram e a menininha cresceu. O mundo antes gigante, se apequenou. Algo mudou. As pessoas reais não têm brilho nos olhos. O sorriso é vago, miúdo, raro. Os ombros são arqueados, a voz ríspida, as palavras pontiagudas. Guerras são travadas o tempo todo. Todos gritam suas dores, imensas dores. Alguns ferem para se fazer entender.
Onde está João? Cadê Maria? - A menina pergunta para si. Procura, procura numa lassidão que só ela sabe. Ela está só numa multidão cinza. Ela vê suas cores ralas, quase indo embora.
Eis que surgem João e Maria:
- Mamãe, mamãe!
Aqueles olhos... Aqueles olhos tinham o mesmo brilho envernizado dos bonecos de papel machê.


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2 comentários:

  1. Muito bonito! Me fez viajar no tempo...Parabéns Lya Gram
    Kátia Aguilar :)

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    1. Obrigada! Fico muito contente que tenha gostado!!

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