sábado, 6 de fevereiro de 2021

A magia do espelho

Uma vez eu conheci uma menina doce. Ela inventava passos de ballet sem saber o que era plié ou fondu. Ela simplesmente se entregava ao que vira uma vez pela televisão: lindas meninas vestidas de saia de tutu, rodopiando toda graça e beleza. Ficava hipnotizada com o movimento leve das mãos e punhos, ao que ela associava a plumas de ganso flutuando harmonicamente num sopro suave de vento. O espelho enferrujado do quartinho dos fundos a viu ensaiar algumas vezes. O sol também a viu por minúscula fresta da janela entreaberta, reluzindo num raio o holofote de um palco vazio de gente. Era só ela e a música imaginária, uma mistura de flauta, piano e harpa. Os pés tortos nunca a incomodaram. Ela erguia o calcanhar ao máximo, colocando nos dedos o peso de seu corpinho magro. E apesar do esforço, nada era dor. Com os olhinhos fechados, quase levitava. Vez ou outra ela desequilibrava, mas a queda era parte de um desafio entre ela e um sonho: ser uma bailarina.  Encontrou encostada na lateral da velha máquina de costura da sua mãe, uma grande agulha vermelha de tricô que em suas mãos, ao gosto da imaginação, virou a bela rosa erguida ao céu. Na prateleira de costura, um pote transparente chamou a atenção da garotinha, pois continha uma grande fita de cetim cor-de-rosa. Ela cortou a fita em dois pedaços e as amarrou no tornozelo, cruzando duas vezes na perninha até finalizar com um lindo laço: eram suas sapatilhas. Mas ainda faltava a saia de tule. Tentou por duas vezes usar camisetas enroladas no short, mas ao primeiro giro, elas se soltavam. Decidira então procurar um cinto. Xeretou o guarda-roupa, retirando e bagunçando as caixas de sapato que sua mãe usava como porta objetos. Enfim, um grande cinto marrom fora alcançado no fundo da prateleira e sua saia de tutu estava a caminho. Ela enrolou o grande cinto na sua minúscula cinturinha, dando voltas até enroscar a ponta por debaixo do elástico do short. Pendurou as camisetas que encontrara no cesto de passar roupas e enfim, o traje estava completo. Com o coração repleto de ternura, a pequena bailarina girava feliz em frente ao espelho.   

Vários anos se passaram e a doce menina virou uma linda mulher. Ela casou-se com um homem encantador e juntos tiveram uma filhinha que se chamava Lana. Certa tarde de verão, a sonhadora bailarina encontrara a gaveta de talheres toda revirada. "Só pode ser coisa da Lana!", ela resmungou. Com os passos pesados, procurou a sua filha pela casa e a encontrou em frente ao espelho do quarto, com uma colher de pau na mão fingindo ser um microfone. Ela recordou-se do seu tempo de criança e dando um beijinho na testa da sua filhinha,  disse:

- Você está dando um baita show!

Há uma magia no espelho que só uma alma pura consegue alcançar. 


 

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