sábado, 13 de março de 2021

O pouso da gaivota

Acordei no meio da madrugada para escrever. É estranho como acontece de ter tantas palavras precisando verter suas águas e ao mesmo tempo lutando para se manter apenas no lado de dentro. Não sei se permaneço navegando a superfície desse mar revolto ou se me disponho a prender o ar para mergulhar e ver o que tem no fundo. Ambas as situações exigem desassossego. O mar de fora pede equilíbrio e flexibilidade e o mar de dentro pede fôlego e coragem. Eu bem que tento abarcar tudo, mas quando o horizonte não revela um porto, me sinto à deriva. As mãos estão calejadas, talvez eu tenha segurado o timão tempo demais. E não importa onde eu jogue a minha âncora, as areias serão remexidas. Uma voz me diz: enfrente! Outra voz me diz: em frente! Eu preciso escolher... Eu preciso escolher? Precisar é verbo desesperado. Então eu largo o timão. Deito-me no assoalho do navio e percebo uma gaivota no mastro. Ela parece serena. De repente mar, timão, âncora, areia ou porto se turvam na evaporação do pensamento e sinto como se apenas a gaivota existisse. E ela me acolhe sem nenhum tipo de julgamento ou pergunta. Ela não me solicita ou ensina nada, apenas me olha. E eu já não me sinto mais à deriva. Eu me levanto, iço a âncora e volto para o timão. Ainda não sei onde está o porto, mas já não importa.  Porque eu sei que aonde quer que o vento me leve, basta olhar para o alto do mastro e perceber que a gaivota nunca me abandona, porque eu também sou ela.




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