sábado, 3 de julho de 2021

Palavras na garrafa

 Certa vez, um homem muito nervoso e agitado com os problemas que lhe eram apresentados encontrou-se com um monge e a ele dirigiu as seguintes palavras:

- Mestre, ensina-me a manter a paz diante dos problemas. Ensina-me a mansidão e o silêncio.

O monge, muito sereno e com olhar atento e acolhedor, colocou a mão levemente no ombro do homem e com muita gentileza o convidou a caminhar. Levando-o ao alto de uma colina, sentou-se no gramado e sem dizer palavra alguma, convidou o rapaz a fazer o mesmo. Passada quase uma hora, o monge entrega-lhe uma folha de papel e uma caneta. O rapaz, então pergunta:

- Mestre, o que devo escrever?

O monge então, aponta para uma garrafa de vidro, onde continham outras folhas de papel escritas, faz um gesto de gratidão com a cabeça levemente curvada e sai a caminhar.

De posse de caneta e papel, o homem então, decide escrever sobre seus sentimentos. Foi elencando cada situação incômoda até a decisão de pedir aconselhamento ao monge. Escreveu também sobre a natureza que o cercava naquele momento, sobre o vento e o cheiro das lavandas plantadas próximas à ele. Ao final de sua escrita, o homem depositou o papel dentro da garrafa e foi embora. 

Na semana que sucedeu, o homem viu-se novamente cercado de problemas. Percebendo que estava prestes à sucumbir aos nervos, decidiu voltar ao mosteiro para aconselhar-se com o monge novamente. Lá chegando, contou seus desafios e sua dificuldade em manter-se calmo e em silêncio. O monge, sem dizer palavra alguma, decidiu levá-lo ao alto da colina onde o convidou a sentar-se. Ao final de quase uma hora, entregou novamente um papel e uma caneta para o homem e foi embora.

O homem ficou sem entender... Já havia praticado aquele exercício, porém, esperava que o monge ensinasse algo diferente. Frustrado e já cético quanto ao método ensinado pelo monge, decidiu colocar o papel em branco dentro da garrafa e foi embora.

Alguns dias se passaram e mais situações desafiadoras se apresentaram. No auge do desespero, o homem então correu até o mosteiro, subiu sozinho a colina e com muita raiva, quebrou o pote de vidro. Tão logo recobrou a calma, percebeu o seu erro e agachou-se para juntar os papéis espalhados. Curioso, leu um papel, depois outro e outro... Lágrimas de intensa emoção rolaram pelo seu rosto. Ao final das leituras, o homem enrolou os papéis tais quais pergaminhos e levou-os consigo. Comprou uma nova garrafa de vidro, colocou os papéis dentro e devolveu-os ao seu lugar de origem. De posse de uma sacola, juntou os cacos do vidro e foi para casa. 

Já em seu lar, o homem decidiu colar os cacos da garrafa de vidro que quebrara. Enquanto fazia isso, foi se recordando das palavras que lera há pouco. Após a colagem, o homem decidiu colocar a garrafa em uma mesa central de sua sala, um local de grande evidência.

Os desafios começaram a surgir novamente, mas agora o homem já sabia o que fazer. Pegou um pedaço de papel e uma caneta e foi logo escrevendo seus sentimentos e depositando na garrafa de sua sala. Até que chegou um momento onde não mais era preciso o pote. O homem carinhosamente retirou a garrafa da sala e a guardou no sótão de sua casa. 

Muitos anos se passaram e a casa do homem, já falecido, fora vendida. O patriarca da nova família foi incumbido de levar algumas quinquilharias ao sótão e eis que encontra a garrafa do homem e seus escritos. O patriarca, ao ler os papéis, derramou algumas lágrimas e decidiu publicá-los em um livro.

Na contracapa do livro, a frase mais importante e famosa:

Sei que estas palavras não me livram dos males da vida, mas ao escrevê-las, eu passo por eles sob o efeito da mansidão e do silêncio.


  



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