Chão de terra


 Aqui, neste chão de terra, sinto cheiro de pertencimento. Caminho a pé por estradas cheias de vidas passadas, presentes, futuras. Sujo feliz os pés com a poeira gentil, que num único passo rememora a grandeza do Criador. Sim, eu abro os braços para sentir o abraço do vento que carrega a energia linda de todo verde esperançoso. Aqui, casinha simples, chão de ardósia e rede na varanda, me sinto abundante, afortunada. Aqui, onde a manhã revela aos poucos o despertar dos animais, minha alma se mantém acordada e consciente dos porquês. Aqui, onde cada detalhe traz a mais pura sabedoria, longe das teorias mirabolantes e perto das vozes dos anjos. Pedaço de chão mais nobre não há. Aqui eu calejo feliz as mãos na enxada, pois todo amor que se dá à terra é recompensado três vezes mais. Aqui, a semente boa é reconhecida logo, pois a terra é fértil. Aqui, eu ouço mais, muito mais. Aqui a cidade é pequenina, mas na sabedoria da simplicidade, soube guardar memória. O coreto na praça, a pastelaria da esquina, a calçada de pedras... Aqui, onde as casas trazem impressas na fachada o ano de suas construções. Aqui onde as pessoas se cumprimentam, sorriso fácil. Aqui, nenhuma luz compete com as estrelas. Aqui, eu não acordo tarde para não perder o espetáculo do amanhecer. Aqui eu aprendo o que livro nenhum ensina. É aqui que eu mostro aos meus filhos a verdadeira vida e a verdadeira paz. Aqui, nós meditamos juntos sem nenhum tipo de ritual e a oração é a gratidão que nasce a cada flor recém aberta, ou pedrinha colorida, ou cães amorosos, ou rio sereno. Aqui, o caseiro é o mestre sábio, que faz do bambu um corrimão, de folhas secas o adubo, de cipós as amarras. Bendito seja esse chão de Deus! Benditas sejam as coisas simples! Benditos os que são terra ao acolherem um ser humano!

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